Conhecer as fases de desenvolvimento de grupos é tão relevante quanto dominar as ferramentas e técnicas que você vai aplicar. Neste texto irei lhe informar sobre:

  • As fases de desenvolvimento do grupo de acordo com a visão do psicodrama.
  • Orientar sobre como agir de acordo com a fase do grupo.
  • Mostrar alguns pontos relevantes que devem ser observados na condução de grupos.

Você já deve ter visto grupos se desfazerem, situações embaraçosas surgirem e pessoas saírem de uma sessão de grupo ou até mesmo de um treinamento comportamental, dizendo que nunca mais participarão de tal situação, não é mesmo? Tudo isso porque quem estava dirigindo o grupo provavelmente não tinha conhecimentos suficientes sobre o desenvolvimento do grupo. Muitas pessoas ainda acreditam que basta conhecer o jogo/dinâmica ou uma ferramenta específica e tudo bem, mas a prática nos mostra que não é somente isto que devemos levar em consideração, é fundamental termos um embasamento teórico sobre grupos para contribuirmos com o desenvolvimento do grupo e, principalmente, das pessoas. Além disso, acredito que o objetivo de todos que trabalham com grupo seja obter ótimos resultados e chegar com o grupo completo até o final do programa.

Pensando nisso, resolvi escrever este artigo para lhe ajudar a conhecer um pouco mais sobre desenvolvimento de grupos, tendo como base a teoria psicodramática que é uma linha teórica dentro da psicologia que tem como um dos objetos de estudo o funcionamento dos grupos. Esta teoria foi criada por Jacob Levi Moreno, no século passado, mas muito difundida em vários países, inclusive no Brasil.

De acordo com o psicodrama as pessoas passam por três fases de desenvolvimento, que chamamos de matriz de identidade. Estas fases são:

Eu-Eu: Num primeiro momento a criança não se percebe como indivíduo, se vendo como extensão do outro.

Eu-Tu: Nesta fase ao perceber que o outro existe, percebe que ela é um indivíduo, ou seja, se reconhece a partir do reconhecimento do outro.

Eu-Ele: Além de perceber que ela existe separada do outro, consegue neste momento imitar o outro, se colocar no lugar do outro, o que no psicodrama chamamos de inversão de papel.

Ronaldo Yudi Yozo, que já foi Diretor da *ABPS, escola em que eu fiz minha formação em Psicodrama, aborda que o grupo tem fases de desenvolvimentos semelhantes às fases de desenvolvimento de um indivíduo, e é com base nos estudos dele que vou abordar estes aspectos de desenvolvimento de grupo.

Observando crianças brincando para entender sobre grupos

Ao observar crianças brincando, podemos perceber que quando são bem pequenas, elas brincam sozinhas, depois crescem um pouco e brincam somente com mais uma criança e se chegar uma terceira criança, irão escolher entre a que já estão brincando e a que acabou de chegar e assim, sempre irá ter um terceiro excluído. Já um pouco maior, as crianças conseguem triangular, ou seja, brincar com várias crianças ao mesmo tempo, incluindo uma terceira criança.

Com base nestas observações e o nosso comportamento quando em grupos novos, podemos concluir que o grupo passa pelas seguintes fases de desenvolvimento.

Fase 1 – Eu comigo: Nesta fase ficamos com nossa percepção voltada para o que estamos sentindo e pensando. Será que vou ter de falar? Minhas mãos estão soando! Eu vou ter que me apresentar, será que vai me dar um branco? Você já deve ter passado por isso algumas vezes, né? Eu confesso que muitas vezes na verdade é um processo natural porque ainda não nos sentimos pertencendo ao grupo, então somos nós com nós mesmos.

Fase 2 – Eu e o outro: Nesta fase começamos a observar o que fala e como é uma ou duas pessoas do grupo (poucas). O que elas tem em comum conosco, como se comportam, quais características elas tem.

Fase 3 – Eu com o outro: Aqui começamos a interagir com uma pessoa, estabelecemos uma relação de corredor. Se for em um curso presencial, ou em um treinamento, vamos logo achando alguém para nos relacionarmos. Perguntamos de onde a pessoa é, o que faz e ao chegar o momento do cafezinho, é nesta pessoa que nos apoiamos. Também é com esta pessoa que vamos fazer dupla, caso tenha um trabalho para ser feito.

Fase 4 – Eu com todos:  Nesta fase já conseguimos interagir com todos, trabalhamos em equipe de forma confortável e até conseguimos imitar ou tomar o papel de alguns de quem estamos mais próximos.

 

Como agir de acordo com a fase do grupo?

Não será possível abordar todos os cuidados que devemos ter em um texto, seria necessário um pouco mais de aprofundamento teórico, mas posso adiantar que é fundamental respeitar as fases descritas acima para propor uma ferramenta ou jogo adequado.

Por exemplo, na primeira fase, se for um treinamento presencial, não vamos introduzir nenhum contato físico e nem trabalho em grupo porque as pessoas se sentiriam muito desconfortáveis. É importante nesta primeira fase ter atividades que as leve a sair da autopercepção para a percepção do outro, propondo atividades de apresentação e autoconhecimento com divulgação para o grupo e assim promover a integração de cada pessoa no contexto grupal. Agindo desta forma ajudamos a fortalecer o desenvolvimento do grupo, salientando que nesta fase deve-se manter trabalhos individuais, sem muita exposição. Quando o grupo já tiver evoluído para as últimas fases aí já poderemos aplicar atividades mais profundas em termos de reflexão e ampliar o relacionamento grupal.

É importante lembrar que as fases de desenvolvimento do grupo não estão diretamente ligadas ao fator tempo, porque cada grupo é um grupo e faz-se relevante ficar atento aos sinais emitidos pelos participantes para poder fazer um bom diagnóstico quanto a este aspecto.

No ambiente online, também é importante promover esta interação das pessoas do grupo para que os vínculos se estabeleçam e pouco a pouco, os membros se sintam confortáveis e mais do que isso, sintam-se pertencentes a um grupo.

Por fim, é salutar informar que não podemos atropelar o desenvolvimento natural do grupo, mas podemos, enquanto coaches, diretores de grupos ou facilitadores de treinamento, promover, através de ferramentas e técnicas adequadas, o crescimento e desenvolvimento do grupo, o que fica relativamente fácil quando conhecemos os embasamentos teóricos sobre grupos e nos preparamos para oferecer um trabalho ético e consistente para nossos clientes.

Espero que este texto tenha lhe despertado o interesse em saber mais sobre o funcionamento de grupo. Se isto aconteceu, deixe seu comentário, compartilhe e ajude mais pessoas a desenvolver pessoas de uma forma segura e funcional.

*Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama.