Paulo* é um homem a beira dos seus 40 anos, com aparência agradável, simpático e deixa a mostra seu lado humano, sensível e uma capacidade cognitiva aguçada, além de sua história profissional mostrar que ele sempre lutou pelas coisas que queria e obteve ótimos empregos, boa remuneração e muitos conhecimentos. Mostra-se apaixonado pela esposa de quem fala com orgulho, viajou o mundo, fala outras línguas e conquistou muitas coisas que queria.

Pelas informações acima, parece que Paulo é uma pessoa de sucesso e em partes até conquistou muito do que queria, mas algumas coisas não saíram como Paulo planejou, ou não planejou.

Paulo, é piloto de avião e por ter paixão pela sua profissão, não se contentou em ser só um piloto, o que não tem nada de errado. Quis ser um dos melhores pilotos, trabalhou nas melhores companhias aéreas e por isto foi negligenciando cada dia mais seus valores, sua saúde e sua vida. Pelo valor status, ele suprimiu valores como liberdade, harmonia e saúde.

Seu ritmo de trabalho atual é desumano, têm em média 12 horas de intervalo entre um voo e outro e são nestas 12 horas que ele tem de dormir, deslocar-se e fazer todas as outras tarefas que envolvem sua vida pessoal, além do agravante de escalas de trabalho em períodos diferentes do dia, ou seja, em alguns dias dorme a noite, em outros de dia e em horas diferentes. Uma bagunça total para o relógio biológico. Não tem tempo para amigos, família e lazer e assim, em nome das conquistas profissionais, ele foi sucumbindo outros papéis na sua vida.

Segundo ele, as cobranças por resultados estão cada vez maiores, menos gente para fazer mais coisas e quem fica tem de equilibrar a bandeja e não deixar o líquido cair, caso contrário, será o próximo da lista de demitidos (nenhuma novidade neste ponto, né?).

Entretanto, o corpo de Paulo está sucumbindo aos apelos emocionais e psicológicos. Seu corpo mandou o sinal, está paralisando seus movimentos. A planta de seus pés está enrijecendo, não consegue hoje correr porque seu equilíbrio está afetado e no ritmo em que a doença está evoluindo poderá em pouco tempo, se ele não conseguir estancar este stress que está destruindo sua imunidade, ter danos muito maiores e aos poucos perder todos os movimentos de seu corpo. Paulo chegou até mim porque está com uma doença degenerativa séria e um dos fatores é o stress alto oriundo do seu papel profissional. Ele é mais um profissional que engrossa os números de que o Brasil é o segundo país em stress, tendo mais de 70% dos trabalhadores sofrendo deste mal, segundo informa pesquisa da ISMA.

O homem que voava, que sonhava em ser feliz plenamente ao se aposentar, que acreditava que somente os outros eram acometidos por stress, depressão, ansiedade e todas as doenças que os trabalhadores são vítimas, agora corre o risco de não andar mais e tudo isso para quê?

Nos meus mais de 20 anos de experiência na área de RH, e muitos deles levando em paralelo a psicologia clínica e agora como coach de realização profissional, tenho ouvido muitos relatos desta natureza, alguns dramáticos como esse, e a maioria tem como causa a falta de respeito das pessoas por seus limites, negligenciando sua saúde e colocando em terceiro ou quarto plano coisas que de fato são importantes para ter sucesso pleno em todas as áreas da vida e não só no papel profissional. Seguem a manada, o fluxo do que a maioria faz e a sociedade espera, sem questionar se estão fazendo o que gostam, o que dá prazer, se estão tendo seus valores respeitados e vivendo uma vida com propósito.

Não quero aqui ser hipócrita de achar que só devemos realizar tarefas que amamos, isso é um tanto irreal, mas segundo estudiosos do assunto, pelo menos 70% das nossas atividades devem nos causar elevação de ânimo, nos energizar, enquanto que 30% são atividades que não gostamos muito. Inverter estes números é adoecer dia após dia até o corpo e a mente pedirem socorro e quando o socorro não vem, o corpo para, a mente adoece.

Agora convido você a refletir:

  • Isto acontece só na aviação?
  • Você acredita que sua vida valha tão pouco a ponto de deixá-la nas mãos de outros para administrá-la?
  • Quando foi a última vez que você se colocou em primeiro lugar da sua lista e fez coisas que de fato lhe dão prazer?
  • Você está vivendo sua vida profissional desta forma, se deixando sucatear, virar trapo, ficar doente, destruir-se para só depois olhar para si?
  • Qual o preço que devemos pagar para conquistar altos patamares profissionais? Vale tudo? Existirá VOCÊ PROFISSIONAL se não existir VOCÊ SER HUMANO, VOCÊ COMPLETO?
  • Se continuar assim, como você acha que estará daqui a 1 ano? E daqui a 3 anos?
  • Se você adoecer o que a empresa vai fazer com e por você? Como é encontrar outro emprego estando doente.

Acorde e organize sua vida para poder viver hoje, apreciando a caminhada e não somente se preocupando com a chegada que poderá nem alcançar.

A história de Paulo me fez refletir mais uma vez sobre a minha missão profissional, que é ajudar pessoas a descobrirem como viver uma vida profissional com mais propósito, mais realização, conquistas e ainda manter-se fiel aos seus valores, talentos e missão de vida. Diante de histórias como essa eu valido o quanto este trabalho que eu estou realizando é relevante e ajudará milhares de pessoas a identificar o que fazer para decolar na carreira, mas também saber o momento certo para pousar em terra firme, o momento de desbravar e o momento de aquietar-se, antes que muitos, como Paulo citou em uma de nossas sessões de coaching, paguem com a própria vida o preço do “sucesso profissional” e como prêmio tenham apenas a presença do gestor em seu enterro (o que já acontece com muitos que morrem pelo trabalho).

Paulo! Aperte o cinto que a viagem está só começando e em caso de emergência, máscaras cairão à sua frente. Caso você esteja com outras pessoas que dependam de você, coloque primeiro a máscara em VOCÊ, para só depois ajudar outras pessoas (você em primeiro lugar). Seu banco é flutuável e se não der para voar, vamos nadar pelo mar da vida!

Vamos juntos, eu e você, recuperar e abrir a caixa preta, resgatar seus valores, definir sua missão de vida e encontrar novas possibilidades, novos propósitos e novas formas de voar, porque acredito muito que sempre há novas perspectivas, muitas saídas e até mesmo um novo jeito de fazer a mesma coisa. Como diz o coach americano Anthony Robbins, “sucesso sem felicidade é fracasso”, e eu concordo muito com isso.

*Nome fictício para manter a ética profissional.